Mimimagem não resolve problema público: por que xingar na internet não substitui a cidadania - POÁ COM ACENTO
Por Adilson Santos
Diariamente, ao acompanhar a rotina da nossa cidade e as mensagens que chegam ao nosso portal, deparo-me com um fenômeno cada vez mais comum nas redes sociais. É a prática do que passei a definir como “mimimagem”.
A “mimimagem” é a atitude daquele morador que se depara com um buraco na rua, a iluminação pública queimada, a falta de remédios ou o lixo acumulado, pega o celular, faz fotos e vídeos, posta em seu perfil, esbraveja, xinga políticos, cobra órgãos públicos e acredita, genuinamente, que aquela publicação indignada vai resolver a demanda do seu bairro.
Não vai.
Fazer barulho em rede social sem o devido encaminhamento formal é mera encenação digital. É expor o problema para gerar curtidas e comentários, mas sem dar o passo fundamental que assusta a ineficiência pública: a cobrança oficial.
Exercer a cidadania dá trabalho, e é por isso que poucos a praticam de verdade. Cidadania não é gravar um vídeo indignado; é pegar o telefone ou acessar o site do órgão responsável, registrar a reclamação na ouvidoria ou na concessionária de serviço público, anotar o número do protocolo, registrar a data, o horário, o local exato e, se for o caso, o nome do servidor que prestou um atendimento inadequado.
O protocolo é a única ferramenta jurídica e administrativa que tira a gestão pública da zona de conforto. Sem ele, para a prefeitura, para as concessionárias e para a justiça, o seu problema simplesmente não existe. Ninguém vai fechar um buraco ou trocar uma lâmpada porque viu um post com dezenas de comentários raivosos no Facebook ou no Instagram. A máquina pública opera por processos, estatísticas e registros formais.
A redes sociais são, sim, instrumentos poderosos para amplificar a voz da comunidade. O portal POÁ COM ACENTO nasceu com esse propósito no Canal do Leitor. No entanto, a imprensa e a cobrança comunitária só ganham força real quando apoiadas em fatos e documentos. Quando o cidadão nos procura com o número do protocolo em mãos e a comprovação de que o prazo oficial venceu sem resposta, a cobrança deixa de ser um “mimi” e passa a ser uma denúncia consistente, que exige resposta imediata dos gestores.
Está na hora de mudarmos a postura. Menos “mimimagem” e mais cidadania ativa. Pare de apenas reclamar para os seus seguidores e comece a notificar quem realmente tem a obrigação constitucional de prestar um bom serviço. Quando a população aprender a cobrar com protocolo na mão, a cidade finalmente começa a andar.
Adilson Santos é jornalista multimídia, radialista, repórter fotográfico e gestor da Rádio PCA e do portal POÁ COM ACENTO. Com trajetória iniciada no fotojornalismo factual — marcada pela cobertura histórica do Voo 402 da TAM —, dedica sua carreira ao jornalismo comunitário, à liberdade de expressão e à análise de políticas públicas e mobilidade urbana no Alto Tietê.
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