Uma história de amor, coragem e gratidão: a despedida de Marcos Alexandre à sua amada Rosely - POÁ COM ACENTO
Da Redação
Mais do que uma despedida, o texto escrito pelo jornalista e confrade de imprensa Marcos Alexandre de Oliveira à sua esposa, Rosely Bitencourt Oliveira, é uma verdadeira declaração de amor, respeito e parceria. Em meio à dor da perda, ele compartilhou com amigos e familiares uma história de vida construída em poucos dias de decisão e em décadas de cumplicidade.
Publicamos a seguir, na íntegra, esse emocionante relato – uma elegia que celebra o amor maduro, a vida compartilhada com propósito, e o exemplo de uma mulher que viveu com leveza, fé e entrega. Um testemunho tocante que inspira não só pelo amor narrado, mas pela forma serena com que Marcos transforma o luto em gratidão.
Queridos (as) amigos (as):
Saudações:
Em nome da família, muito obrigado. Não vou elencar o nome de cada um dos familiares e amigos que nos apoiaram neste momento pois consumiria muito espaço, tempo e cada um sabe o seu papel e sua contribuição. Mas venho agradecer ao Hospital do Câncer Dr. Arnaldo e à Rede Feminina de Combate ao Câncer de Poá, em primeiro lugar. Agradeço aos amigos e colegas da Polícia Científica do Estado de São Paulo, à Universidade Zumbi dos Palmares, Secretaria de Segurança Pública e Assessoria de Imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, dos colegas da Universidade de São Paulo, especialmente do Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades.
Agradeço aos amigos de diversos órgãos de comunicação com que tenho o privilégio de tratar profissionalmente. Aos amigos da direção da Legião da Boa Vontade – LBV e muitos familiares que integram essa instituição. Ao Kyokai Piratininga do Tenrikyo, representados pela família Mizoguchi (citando um sobrenome, por favor, sintam-se citadas todas as famílias, Lopes, Ferreira, Silvestre, todas), nossos amigos de quase quatro décadas. A todos os amigos que compareceram representando diversas religiões – de matriz africana, espíritas, evangélicos, católicos, judeus, da religião islâmica, de diversas ordens e potências maçônicas, fraternos agradecimentos. Amigos ateus, agnósticos, enfim, de todas as crenças que respeitaram o desejo da família e respeitaram-se uns aos outros como convém e fizeram das despedidas da Rosely minha esposa um congraçamento suave com manifestações discretas e oportunas, sem proselitismo de nenhuma espécie, muito obrigado! Também os de diversas correntes políticas e políticos, vários deles autoridades eleitas a quem agradecemos pelo respeito e decoro e que só dignifica o mandato. Obrigado.
Segue uma elegia à Rosely Bitencourt Oliveira, minha esposa, que minha forma de registrar os pensamentos e porque na despedida pedimos nenhum discurso de ninguém, nem meu nem de família, nem de amigos, não que faltasse o que dizer, mas que tudo o que poderia ser dito e ainda é, sobre ela, será pouco e o foco era e foi a nossa homenagem a ela não porque morreu que pessoas – e boas – morrem, todos os minutos desde o início, mas pela pessoa que ela significou viva. Tampouco é um endeusamento, uma biografia, mas apenas o que eu gostaria de deixar registrado da nossa história, minha e dela que talvez muitos não conheçam – se é que isso é possível eu falando dela em cada canto.
Fica para quem gostaria de conhecer mais ou relembrar a Rosely.
Eu e a Rosely nos casamos em 5 (cinco) dias sem nunca antes termos nos conhecido. Uma ex-aluna minha que era princesa em uma Festa do Peão Boiadeiro me apresentou à Rosely no Baile da Coroação. Nos cumprimentamos e a aluna nos deixou pois tinha que ir para o palco. Uns minutos de silêncio e eu a convidei para dançar – o que eu ainda não sei fazer e ela sempre adorou – mas o barulho mal deixava conversar. Meia hora depois ela já avisava que ia embora, pois estava trabalhando na barraca da Promoção Social, com a esposa do vice-prefeito na época. Eu a acompanhei até a casa dela e no caminho, perguntei – pra puxar assunto – o que ela “queria da vida”. A resposta foi: “Uma família igual à do meu pai e da minha mãe”. Isso foi o que ganhou. Nos despedimos e enquanto eu cobria o grande evento para o jornal em que trabalhava, ficamos juntos durante quatro dias e eu enxerguei a mulher maravilhosa que estava diante de mim. No final do quarto dia, eu falei pra ela que gostaria de fazer família com ela, pois eu já havia me casado antes, aos 18, com pompa e circunstância e pouco tempo depois me separado, já tinha saído meu divórcio e ela se assustou, pois tinha uma proposta de trabalho na Holanda, como babá dos filhos de um casal de médicos … o rapaz era filho do patrão da minha futura sogra há mais de 30 anos, chefe de cozinha na maior colônia de férias pra estudantes talvez da América do Sul, na época, e todos conheciam bem a família. A ela, que arriscava cantar e cantava muito bem, propôs o casal de médicos que integrava uma banda de música brasileira, ele saxofonista, a esposa dele não lembro, ela pudesse talvez ser a vocalista… Ela me mostrou as passagens compradas…
E aí ela disse que melhor que eu a esperasse voltar, depois de um ano, dois e eu disse que a gente podia se perder, não se reencontrar mais… Aí ela falou “Ah, isso é loucura, mas fala com meu pai, minha mãe e meus irmãos…” sem talvez imaginar, sei lá. Pronto. Reunião com uns membros da família, que já tinham me visto nesses quatro dias, alguns deles, acharam um desatino, mas meu futuro sogro Ângelo Lopes Ferreira, um dos maiores homens que eu conheci na vida, ouviu, pensou, me pediu para esperar na sala, tomando café, foram para a cozinha com ela, conversaram pois mais uma hora, eles voltam e ele diz: “Eu assim, faço gosto, porque você veio aqui, disse que não está apaixonado pela minha filha, não fez promessas e só disse que queria casar com ela e ‘fazer família igual à dela’ que família ela já tem e ela não precisa de nada que não tenha aqui”. Ele me acolheu, a família me acolheu como a um filho e eu fui falar com o padre Henriquinho, de uns 80 anos, parecia, da Igreja Matriz. Eu vivi minha adolescência e juventude na religião cristã protestante, mas fui um dos últimos coroinhas da igreja católica na minha época e o padre me conhecia bem… Ele também achou precipitado, aconselhou a nos conhecermos melhor, mas pensou bem e me perguntou como eu queria fazer… eu disse que estava com o táxi do Zé Português parado na porta da casa paroquial me esperando falar com ele e que eu queria fazer uma cerimônia na casa em que eu morava sozinho, eu, ela, claro, pai dela e mãe e minha mãe e ele falou: “Espera que eu vou pegar a roupa sacerdotal, os paramentos e vou atrás de vocês na minha motoneta (!)… vá lá buscar a noiva e os pais dela, meu filho…”
Ele, o padre, nos casou e tempos depois nos casamos no Civil. A Suellen, minha filha, era fruto de um noivado desfeito e aos três anos de idade eu a ganhei como minha filha e também regularizamos, passando pelo processo legal de adoção unilateral, tudo certinho e ela me deu o privilégio de ser pai dela.
Mais de um ano e meio, veio a Alexia e anos mais tarde, o Marcos Filho…
E eu conto essa história porque foram mais de três décadas construindo uma família com altos e baixos, com muita dificuldade financeira até as crianças crescerem e nos estabilizarmos mas ela esteve sempre comigo, nós fomos parceiros e ela nunca foi submissa, controlada, mas sim, tudo o que ela fazia ela perguntava pra mim, me participava e eu a ela, e ela tinha a inteligência emocional de me fazer pensar que eu estava à frente, quando na verdade, ela me fez o homem que eu sou. Por isso até muita gente estranhava sei lá que ela estava comigo nos eventos de trabalho, acadêmicos, todos, claro dentro da lei e do bom-senso…, mas porque no ambiente que não coubesse ela, não servia para mim. Nossos amigos são quase todos os mesmos…
Não era perfeita, mas pra mim, foi mais que suficiente. Brigávamos como todo casal, discutíamos, discordávamos em muita coisa, éramos dois indivíduos completamente diferentes que cediam um ao outro pelo bem de ambos. Ela, mais generosa e inteligente, disfarçava que cedia mais. Quase todos os erros no relacionamento, minhas manias, meu mau-humor, praticidade protetora, os excessos, as falhas foram minhas e por todas com ela eu me acertei. Tudo o que ela quis viver, viveu e me deixou viver. Nós nos deixamos viver, juntos. Até partiu levando uma foto do ator Tom Cruise que era o preferido dela, e eu deixei…
Ela deixa – deixa, não – permanece – na família “igual à da minha mãe e do meu pai” que ela construiu comigo do jeitinho que ela queria, me ajudou a ser “doutor” bacharel, mestre, e quase viu o doutoramento e pela USP que a ela será dedicada a tese, que ela via minhas noites e revisava meus trabalhos, meus livros, meus escritos, cuidava de cada detalhe da casa, da comida, das roupas; ela era minha rede de apoio abaixo de Deus, junto com meus filhos. Ela quase terminou – ia começar o estágio – Serviço Social na Unicid, mas lá atrás, quando parou, parou pelas dores no corpo e pelo cansaço que sentia, talvez os primeiros sinais, mas que mesmo fazendo todos os exames, toda a prevenção, inexplicavelmente não foi detectado e quando foi, a progressão que inicialmente tudo indicava que poderia ser lenta, se deu como deu.
Mas ela viveu quase três anos mais intensamente ainda após o duro diagnóstico inicial, que que estágio avançado, sofreu no início, uns três meses, começou um tratamento de mais ano e meio, melhorou, teve uma boa resposta nos últimos oito meses com um medicamento de alto custo obtido na Justiça e infelizmente em menos de um mês o quadro levou a este desfecho, mas no que pude acompanhar, todo o tempo, ela teve desconforto na primeira das duas últimas semanas em casa, indo e voltando do atendimento e já internada, mais cinco dias. Eu estava com ela no momento em que ela nos deixou, antes conversamos bastante no dia anterior, ela estava em paz com Deus e na fé e esperança em Cristo, depois dormiu cada vez com o rosto mais relaxado e suavemente parou, rosto sereno, sem falta de ar, sem, aparentemente, sofrimento.
Por tudo isso, é que eu só tenho que agradecer a Deus e dou testemunho disso, que pela fé creio na vida espiritual em que ela descansou e que cientificamente, tudo o que estava ao alcance, naquele momento e situação foi feito, com competentes profissionais médicos, enfermeiros (as) e de todo o tipo de apoio que ela poderia receber. Atendimento humanizado, humano, profissional, empático – carinhoso até, mas acima de tudo respeitoso com ela, mas com todos que presenciei neste período de tratamento, comigo e com minha família. Como dito, acima, não elenco o nome de cada um pelo espaço, mas já agradeci, sempre agradecerei e pretendo dedicar uma parte do meu tempo e vida para se não puder ajudar financeiramente, da minha pequenez falar, divulgar, influenciar, pelo reconhecimento do trabalho, sua ampliação no que for possível como política pública pois ela teve esse atendimento exemplar e pelo Brasil, muitos às vezes enfrentam dificuldades materiais, de acesso, de falta de apoio da família e amigos e até mesmo de informação. E a Rosely, que sempre quis e fez o bem às outras pessoas, às vezes até deixando-se em segundo lugar, ia desejar que fosse assim…
Vou me afastar do trabalho nos próximos dias – desculpem se não responder imediatamente a todos, mas particularmente eu vou respondendo um a um – com exceção dos compromissos outros inadiáveis, que contei com a compreensão até mesmo nesses e espero continuar… é breve… serão dias…
E se me encontrarem em uma corrida pelas ruas, no supermercado, nas universidades, nas bibliotecas, nos restaurantes, não hesitem em me abordar, o abraço será muito bem-vindo, choro por dentro mas também não vou me furtar a falar brevemente da Rosely, que este texto longo não é desabafo, não pede pena, dó ou comiseração pública porque não é o caso e nesse assunto tudo nós já recebemos de Deus, da família, dos amigos, dos colegas e qualquer dificuldade sei que vamos resolvendo com o apoio e consideração de todos porque “não perdemos ela para o câncer”, mas tivemos a vitória que ela conseguiu estender sua passagem na terra, com dignidade, a possível qualidade de vida diante das circunstâncias, cuidada e cercada de pessoas que a amavam e a amam, na memória, para sempre.
Vivamos como ela gostaria de continuar vivendo e viveu: com alegria, fé e coragem.
Muito obrigado
Marcos Alexandre de Oliveira
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