Crônica: A Dança dos Saltimbancos de Poá - POÁ COM ACENTO
Em Poá, como em tantas cidades do Brasil, há uma fauna peculiar a habitar os corredores da Administração Pública: o “comissionado-saltimbanco”. Não se trata de uma figura estável, com raízes fincadas na meritocracia do serviço público, mas sim de um ser volátil, que se move ao sabor do vento político, pulando, com a agilidade de um macaco e a dissimulação de um camaleão, de galho em galho, de sigla em sigla.
A ideologia, para eles, é um mero acessório. Esquerda? Direita? Centro? Tanto faz. A bússola moral está quebrada; o que importa é a conveniência. O que realmente move essa dança não é o servir, mas o ser servido, e a ética profissional é um luxo que poucos podem pagar, ou melhor, que poucos se importam em praticar.
A origem do cargo, para o saltimbanco, é irrelevante. Não importa se a sinecura veio do Poder Executivo, com a caneta de um prefeito, ou se desceu dos gabinetes do Legislativo Municipal, envolta em formalismos e no silêncio do “quem indica”. O que importa é o cargo, e ponto. E que fique claro: há até “fumaça” de indicação política no Judiciário, como aquela que pairou sobre o governo do ex-prefeito Gian Lopes. Uma suspeita, um cochicho nos corredores, que reforça o pacto da conveniência: onde há poder, há um galho disponível.
Ou, ainda, se o cargo é fruto de um apadrinhamento menor – vindo do padrinho, da amiga, ou até mesmo do namorado – a finalidade é a mesma: o comissionado assumiu uma função que deveria ser pública, mas que, na prática, está integralmente a serviço de si próprio. Podendo até por vezes ter nepotismo cruzado.
Nessa conveniência oportunista, o saltimbanco se transforma no mais fervoroso dos bajuladores. A devoção ao chefe é tamanha que beira o misticismo.
Mas a crônica se debruça sobre algo mais sutil, e talvez mais corrosivo: a falta de educação. No palco do poder temporário, a arrogância veste o comissionado como uma segunda pele. Ele, que ontem era o “Zé Ninguém” e amanhã pode voltar a sê-lo, hoje se traveste de “estrela”. A população, antes vista como a razão de ser do serviço público, transforma-se em mero degrau, uma lista de contatos a ser explorada para demonstrar “popularidade”. São as pessoas que ele usa para se fazer amigo do povo, não as pessoas a quem ele serve.
O auge dessa teatralização do poder reside no cumprimento. Em uma dessas “rodas de povo” cuidadosamente orquestradas, o saltimbanco, tomado por sua própria importância, estende a mão para um cidadão. Mas a cortesia é incompleta, um gesto oco. O olhar? Ah, o olhar está perdido no horizonte ou, pior, fixo no interlocutor ao lado, em uma conversa paralela que, certamente, julga mais importante. O aperto de mão é um apêndice mecânico, um protocolo cumprido sem alma. Estende a mão fria, o rosto virado, e o cidadão recebe o toque sem a conexão visual mínima, a decência de ser reconhecido. É a personificação do “faço por obrigação, mas você é irrelevante”.
E ai de quem não o reconhece, de quem não o cumprimenta primeiro! O ego ferido se inflama. O “estrelismo” não cumprimentado exige satisfações, quer ser o dono da razão. A deseducação se inverte, e o bajulador que se curva ao superior exige que o povo se curve a ele.
A mensagem, ó saltimbanco de Poá, e de qualquer esfera de poder, é simples: Aprenda. Aprenda que o cargo comissionado não é uma coroa, mas uma farda de serviço temporário. Seu interesse particular não pode se sobrepor ao interesse público. Aprenda que a gentileza e a educação não são ferramentas de marketing político, mas pilares da civilidade. O serviço público, temporário ou não, tem a obrigação ética de ser profissional.
Sirva o povo, olhe nos olhos de quem o cumprimenta, não converse com a pessoa ao lado enquanto a mão aperta a de um munícipe. Respeite. O galho de onde você pula é financiado pelo povo que você ignora. E um dia, inevitavelmente, o vento muda, o galho quebra, e a única coisa que resta é o eco da sua arrogância nos corredores vazios. Aprenda a ser gentil. É de graça, e é o mínimo.
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