Quando a falta de inclusão sangra a alma, por dra. Deise Passos - POÁ COM ACENTO
Por Deise Passos
Na segunda-feira, 11 de agosto de 2025, vivi um dos dias mais dolorosos e reflexivos da minha jornada como mãe e como defensora da inclusão. Ao buscar meu filho Bernardo na escola, fui informada pela professora de que ele havia sido escolhido para representar a unidade nas Paralimpíadas da rede municipal de Mogi das Cruzes. Ele estava radiante, orgulhoso e cheio de expectativa.
“Você assina, mãe? Você autoriza, né?”, disse ele com um brilho nos olhos que me fez sorrir na hora.
No caminho para casa, perguntei:
— Bernardo, vocês já treinaram antes para as Paralimpíadas ?
E ele, sorrindo, respondeu:
— Não, mãe, o treino vai ser na terça e na quarta.
Insisti:
— Mas e antes disso?
E ele, com a naturalidade que só as crianças têm, disse:
— É porque eu sou autista, mãe. É porque Olimpíada é para autista.
Aquele sorriso inocente carregava uma mensagem dolorosa: meu filho já internalizou que, para ele, o esforço, o preparo e a persistência não são exigidos. *Ele aprendeu ali que não vale a pena investir tempo em quem é como ele. Que autistas, mesmo com treino, não conseguem mudar sua realidade. Que autistas são o que são, que não conseguem ultrapassar as barreiras de suas limitações.*
O ambiente escolar é um referencial para a sociedade e, principalmente, para a própria criança sobre quem ela é e como o outro deve ser tratado. E o que meu filho absorveu naquele momento foi que ele não tinha a mesma capacidade de evoluir ou aprender mais.
Na escola, as Olimpíadas tradicionais, voltadas às crianças típicas, tiveram treinos de semanas, talvez até meses, de antecedência. Foi assunto comentado até na reunião de pais, destaque em conversas e orgulho por conquistas no ranking municipal. Já as Paralimpíadas, destinadas a crianças atípicas, teriam apenas dois dias de treino. Duas sessões para competir em nível municipal.
Pergunto: que ser humano, com apenas dois dias de treino, estaria preparado para disputar uma competição?
Se a escola não garante igualdade de condições nem nas situações básicas, como proporcionar o mesmo tempo de treino para crianças típicas e atípicas, como esperar que ela seja capaz de promover inclusão verdadeira dentro do ensino?
Inclusão começa no simples, no cotidiano. É no básico que se constrói o alicerce para as situações mais complexas.
Como se não bastasse, no mesmo dia, durante a hidroterapia do Bernardo, me deparei com outra cena que me gelou a alma. Ele estava na piscina, sozinho de um lado, enquanto a profissional responsável conversava com outro funcionário, do outro lado, de costas para ele e com outro paciente. Meu filho, que não apenas é autista, mas também tem epilepsia, TAG e TOD, estava desassistido em um ambiente de risco altíssimo.
Se uma crise tivesse acontecido ali, até a profissional chegar poderia ser tarde demais. Denunciei o caso à coordenação da clínica e o responsável foi substituído. Mas o que mais me inquieta é: até mesmo em ambientes que deveriam ser 100% preparados para receber crianças com necessidades especiais, o olhar humano está sendo substituído por uma rotina mecânica e desatenta.
Esses dois episódios, ocorridos no mesmo dia, deixaram claro para mim que a maior carência da nossa sociedade não é apenas a falta de inclusão; é a falta de humanização.
Não deveria ser preciso uma lei para garantir que um ser humano olhe para o outro com atenção, cuidado e respeito. Não deveria ser preciso um protocolo para lembrar que crianças atípicas merecem o mesmo preparo, estímulo e segurança que qualquer outra.
Estamos nos tornando uma sociedade robotizada, cumprindo tarefas no automático, enquanto o essencial, o olhar humano, o cuidado genuíno, vai sendo perdido.
Com a falta de inclusão e todo esse quadro que se apresentou na segunda-feira para mim, a minha alma sangrou. Sangrou como mãe, sangrou como mulher, sangrou como profissional do Direito. Eu chorei, sim; mas foi um choro libertador, um choro que serviu de combustível para eu não desistir.
Não pense você que, por eu ser profissional do Direito e conhecer as leis, a vida é mais fácil nessa luta pela inclusão. Talvez muito pelo contrário: saber dos direitos do meu filho e ver muitos deles serem negados pesa ainda mais.
Eu tive o meu momento de sangrar, o meu momento de chorar. Mas também tive o meu momento de recolher todas as minhas lágrimas e transformá-las em benefícios não apenas para o meu filho, mas *para toda a sociedade atípica*.
Todas as providências como mãe foram tomadas. Todas as providências como profissional do Direito foram tomadas. E isso servirá não apenas para o Bernardo, mas para *todas as famílias que vivem essa realidade.*
Lembrem-se: juntos sempre somos mais fortes. E não podemos desistir jamais de um mundo mais inclusivo, mais justo e mais humanizado.
Dra. Deise Passos: Com atuação na OAB de Poá e atualmente na Comissão de Direitos do Autista da OAB de Mogi das Cruzes, onde também atua como conselheira suplente no CMAPD (Conselho Municipal para Assuntos da Pessoa com Deficiência), colunista no portal de notícias POÁ COM ACENTO e Jornal Argumento.
Além dos artigos e vídeos no portal e no jornal, ela também se conecta com o público por meio de suas redes sociais:
@deisepassos.advogada – onde compartilha conteúdos jurídicos e orientações;
@deisepassos_vidaatípica – um espaço afetivo onde fala sobre sua vivência como mãe atípica;
Canal no YouTube: Deise Passos – com vídeos informativos, relatos e reflexões sobre direitos, inclusão e maternidade.
Fotos: Arquivo familiar
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